Conheça a vida das pessoas que vão aonde o poder público não chega

Conheça a vida das pessoas que vão aonde o poder público não chega

 Jefferson da Fonseca Coutinho – Estado de Minas

Publicação: 17/06/2012 07:34 Atualização: 17/06/2012 09:12

'O futebol é um pretexto, uma estratégia pela causa. Todos ganham com isso' Marcilene Conceição, voluntária (Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press) “O futebol é um pretexto, uma estratégia pela causa. Todos ganham com isso” Marcilene Conceição, voluntária
Dom? Vocação? Coragem? Para alguns, fé no homem, apenas. Por acreditar que, em qualquer tempo, lugar ou situação, o ser humano tem salvação. Para outros tantos, uma chance de se redimir do passado obscuro e fazer a diferença por uma sociedade menos violenta. Transitando pela fronteira tênue entre o bem e o mal, verdadeiros diplomatas, mediadores sem fardas, dedicam suas vidas ao diálogo e aos cuidados com o semelhante. Em meio à criminalidade, nos aglomerados, ou nos presídios, entre condenados, voluntários fazem de tudo para oferecer um futuro melhor para crianças ou resgatar homens feitos, sempre atuando com voz serena em ambientes em que costumam imperar os gritos. Em busca desses embaixadores da paz, o Estado de Minas encontrou missionários sem inimigos, religião ou partido, que vão até onde o poder público não chega ou não consegue se impor, armados apenas da palavra e da confiança.

Eles sabem que pisam em terreno minado. Por isso, muitos preferem evitar fotos. Outros pedem para ter os nomes preservados. Não é sem motivo. Em vários pontos por onde acompanhamos esses mediadores, de norte a sul da Grande BH, a sensação é a de que se está sendo observado o tempo todo. De longe e de perto. Muito perto. Eficazes redes de informações estão atentas aos passos de qualquer um estranho aos interesses do lugar. Há um diálogo codificado pelos ares, na ponta da linha de carretel ou no som do estouro de fogos de artifício. Em diversas situações, por descampados, becos e vielas, são os olhares de gente pequena, em calças curtas e papagaios nas mãos. Soldados descamisados, armados, são mais discretos: observam o movimento, com celulares em punho. Mas na companhia de um dos embaixadores da paz, o visitante está seguro. Sabe-se que eles não trazem intenção de conflito ou aborrecimento de qualquer natureza pelas mãos dos visitantes. “Tudo sangue bom”, ouve o rapaz banguela, vítima de violência policial. O grupo forasteiro goza de certa imunidade, espécie de carta branca, pelo bem geral da comunidade.

Mas a atuação desses diplomatas não ocorre só nos becos e vielas. Que o diga o homem alto, forte, de 43 anos, que prefere ser identificado apenas por Souza. Onde o sol nasce quadrado para quem apronta, a voz dele merece ser amplificada. Conhecido como “Pastor”, é dono de ideias e de coração sem tamanho. Estudado, autor de monografia intitulada A ressocialização do ser humano dentro do sistema prisional, para o curso de direito, tirou as palavras que levou para a academia da experiência dos tempos de agente penitenciário.

Souza também já foi diretor de unidade socioeducativa em centro de reabilitação de menores infratores. Com a experiência de quem já viu de tudo um pouco em se tratando daquilo que o ser humano é capaz, ele defende que, independentemente das circunstâncias, todo mundo merece nova oportunidade, “um voto de confiança”. O agente conta que nas galerias, entre os presos, perdeu a conta de quantos homens ele testemunhou mudar. O apelido “Pastor” veio não da religião, mas, segundo um colega de função, pela “força com as palavras, pela fé e pela paciência em ouvir todo mundo”.

Ouvidos parece ser o que procura, fora dos muros da prisão, o menor de olhos vermelhos, fundos, que se envergonha por ter “rodado” como ladrão. Em um dios aglomerados da Zona Sul de BH, cabisbaixo, ele aproxima-se do grupo, parecendo buscar palavra de força do agente amigo. Mas também pode estar tentando descolar dinheiro para dívida com quem não se pode deixar de pagar. Na velocidade com que se aproximou, o menino sem camisa cai no mundo. Some na esquina da quebrada. Outros dois pequenos, silenciosos, estão na espreita do outro lado da rua. Veem o rapaz bem vestido, com passagem pelo mundo do crime, que fala da ideia legal que quer levar adiante na comunidade. Deixou de lado as drogas para tocar a vida em família. Nas janelinhas e nas lajes, sob o sol de rachar, ainda que discreto, o movimento cresce. Motos descem e sobem, olho sempre nas visitas. As buzinas e o céu limpo dão sinal de que tudo está bem.

ENTRE O RIGOR E A COMPREENSÃO

Estamos de volta ao presídio. Entre os detentos, Pastor fala sobre ofensa: “Nenhum preso admite que a mãe seja ofendida. Mas a maior ofensa para uma mãe é ter o filho no crime”. Conversa dura entre sujeitos privados da liberdade. “De maneira alguma eu prego ou faço sermão. Falo em bons modos, respeito ao outro”, justifica. Segundo Souza, a parte mais difícil do trabalho como agente penitenciário é ter de ser um profissional de segurança, agir com rigor e disciplina e, por outro lado, compreender com responsabilidade a necessidade e a importância da ressocialização do preso. “Ele já está sem sua liberdade. Precisa ser respeitado e ter condição de repensar seu comportamento, para estar pronto para recomeçar a vida”, filosofa. Para o voluntário, a defesa dos direitos humanos é um grande avanço do sistema penitenciário no Brasil. “Infelizmente, há as superlotações…”, fala, pontuando as reticências que abrigam tudo o que de infelizmente ainda existe atrás das grades.

Souza conhece o inferno de perto, mas escolheu sair para contar a história. Com trânsito entre detentos acusados e condenados pelos mais variados crimes, conta que abraçou a causa quando ainda era menor, nas favelas. “Foi quando entendi minha pessoa, minha própria condição; quando vi amigos e colegas morrendo por causa das drogas”, revela. Pastor conta que testemunhou muitas tragédias que o fizeram dar mais valor à vida. Em 1992, em Contagem, na conhecida tragédia da Vila Barraginha, por três casas Souza não perdeu a vida e a família no desastre em que 36 pessoas morreram. “Tiramos muitos mortos do meio dos escombros. Uma tristeza sem fim”, lamenta. Mesmo calejado por tanta dor, Pastor reconhece que o trabalho pela paz é árduo. “A mudança não é dá noite para o dia. É preciso insistir e acreditar. A minha maior vontade é ver esse trabalho de respeito e de fé no outro se espalhar por todo o país”, idealiza.

O maior clássico do futebol

Há uma farra no mundo da bola que não está nos estádios, nas emissoras de rádio e TV ou nos jornais e sites de notícias. Nesse universo não há tampouco salários milionários, embora eles estejam sempre como um sonho mais ou menos subentendido. Nos campinhos dos aglomerados e dos bairros pobres da Região Metropolitana de BH, agentes de transformação social fazem das tripas coração para tirar crianças de ruas, becos e vielas com atividades mais dignas do que os favores prestados à criminalidade. Em diversos pontos visitados em Belo Horizonte e Ribeirão das Neves, quando os menores não estão na escola, estão batendo bola ou fazendo arte, orientados por voluntários de responsabilidade, respeitados até pelo mundo do crime. “Bandido não quer que o filho seja bandido”, diz o moço em área barra pesada, vizinho de ponto de venda de drogas.

Um dos lugares onde se montam esses times do futuro é o Campinho do Lula, no Bairro Sevilha B, em Ribeirão das Neves. Bastaram dois minutos para que, em tarde de dia de semana, 10 garotos se juntassem para treino extra do Força, Fé e União (FFU) Futebol Clube, que aos domingos reúne cerca de 60 crianças pelo projeto Futebol Periférico, comandado por Marcilene Conceição Correia da Silva, de 35, embaixadora da paz na região. “Nossas crianças são os adultos de amanhã. Não consigo ver futuro que não passe pelo cuidado cada vez maior com as crianças”, considera a idealizadora do trabalho batizado “Somos craques e não há pedra em nosso caminho”. Os aliados, segundo a agente, são a principal chave para o sucesso da proposta. Parceiros como Hilário Lourenço, de 21, abraçado à causa pelo futuro da comunidade. É ele o monitor da meninada, no comando da atividade do dia.

“O Hilário é referência na comunidade, porque cresceu em área de grande exposição a problemas sociais e não perdeu o rumo. É trabalhador e muito bom moço”, elogia Marcilene. A agente entende que trabalho social não é fazer uma quadra e deixar as crianças soltas, por conta própria. “É preciso de acompanhamento, com todos os cuidados de que as crianças precisam”, ressalta. A voluntária diz não ter a pretensão de mudar o mundo, mas acredita, por meio do respeito ao outro, estar no caminho para a construção de uma nova realidade. “As crianças de outras comunidades já começam a se frequentar, sem fronteiras, com boas amizades construídas. O futebol é um pretexto, uma estratégia pela causa. Todos ganham com isso”, considera. Nas quatro linhas de terra, garotos entre 9 e 13 anos, sob o comando do técnico Hilário, já demonstram entender algo mais sobre as regras da boa convivência.

'Uma sociedade só avança quando entendemos que é preciso caminhar juntos, com respeito e dignidade' Ice Band, rapper (Juarez Rodrigues/EM/D.A.Press) “Uma sociedade só avança quando entendemos que é preciso caminhar juntos, com respeito e dignidade” Ice Band, rapper

Destinos domados pela música

Hudson Carlos de Oliveira, o rapper “Ice Band”, de 42 anos, é outro que já visitou os porões do inferno. Depois de tempos conturbados de envolvimento com o crime, de pagar pelos erros cometidos e quase perder a vida em situações de terror e morte, o artista é hoje exemplo de transformação e inspiração em Minas Gerais. Premiado, Ice Band comanda o projeto Hip Hop Educação para a Vida em diversas comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde 2010, cerca de 4 mil crianças de 30 escolas públicas já ouviram o rapper contar e cantar a própria sorte. Hudson, “sobrevivente de guerra”, não esconde as duras marcas do passado, gravadas a ferro e fogo no próprio corpo.

“Não quero que as pessoas mudem porque eu quero. Elas precisam mudar porque elas querem mudar. A escolha é de cada um e o nosso trabalho e tentar fazer com que elas conheçam melhor a realidade”, diz. Para o arte-educador, “uma sociedade só avança quando somos capazes de entender que é preciso caminhar juntos, com tolerância, respeito, dignidade, valorizando a vida, a sensibilidade e os pequenos gestos que nos humanizam”. Além da música, Ice Band, no Aglomerado da Serra – assim como Marcilene, em Ribeirão das Neves –, comanda projeto de futebol desde 1997. “Contrariando as estatísticas do Brasil, estou vivo e trabalhando muito para que outras pessoas sobrevivam também. No futebol, o que eu digo é : ‘faça um gol pela vida’. É um trabalho permanente de mediação de conflitos”, pontua.

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