Dados do Estado sobre violência são menores que os do SUS

Dados do Estado sobre violência são menores que os do SUS
Não batem. Em 2010, BH registrou 620 mortes, segundo o governo do Estado; pelo SUS, foram 713

As estatísticas da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) sobre os homicídios registrados em Belo Horizonte não coincidem com os números do banco de dados do Sistema Único de Saúde, o Data-SUS. A diferença entre os registros feitos em nível estadual e os da esfera federal, que até 2006 variava entre 2% e 3%, teve um salto nos anos seguintes até chegar, em 2010, a 15%.

Pelos dados da Seds, a capital registrou, há dois anos, 93 homicídios a menos se comparados com os índices contabilizados pelo governo federal no mesmo período. Foram 620 assassinatos registrados pela Seds, contra os 713 que constam no Data-SUS.

“Isso significa um mês e meio de estatística que o governo mineiro ‘engoliu’”, disse o pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luís Felipe Zilli. A partir das denúncias de que estaria havendo uma tentativa do governo mineiro de mascarar dados da violência no Estado, o pesquisador decidiu comparar os números. Ele caracterizou o resultado como “surpreendente”.

De acordo com Zilli, é natural que haja diferença de até 3% entre as estatísticas. Isso porque o Data-SUS é mais criterioso ao selecionar as agressões que levam à morte. “Mas chegar a 15% indica que está ocorrendo algum problema de registro, seja intencional ou não”, afirmou.

Para o pesquisador mineiro, não há justificativas para o Estado não ter um banco de dados confiável e eficiente, já que vem investindo muito no Registro de Eventos de Defesa Social (Reds). “O Reds é um dos sistemas mais caros do país. Minas tinha saído na frente quando o adotou para integrar as informações das polícias Militar e Civil. Agora, o Estado está retrocedendo e isso precisa ser investigado”.

Desde janeiro de 2011, o governo do Estado não torna públicas as estatísticas de violência em Minas. Anteontem, após reportagem de O TEMPO sobre a ordem para que os comandantes de batalhões não repassassem estatísticas de criminalidade à imprensa, o governador Antonio Anastasia determinou a revogação do memorando 5008.2/2012, que trazia os termos da nova conduta.

Segundo a Secretaria de Estado de Governo (Segov), os boletins mensais de violência voltarão a ser divulgados a partir do próximo dia 27.

Especialistas
Estado precisa investir mais na Polícia Civil
Para o sociólogo Luís Felipe Zilli, enquanto o governo não investir na Polícia Civil, com recursos melhores para investigações e perícias, não vai conseguir combater crimes mais violentos. “O Estado investiu na Polícia Militar porque os resultados aparecem mais rapidamente, mas não consegue prender e punir os bandidos mais perigosos, que não são muitos. Não há uma boa metodologia de investigação e perícia técnica”.

Segundo a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), para este ano está previsto um gasto de R$ 993,3 milhões com a Polícia Civil e, para a Polícia Militar, serão destinados R$ 4,9 bilhões, quase cinco vezes mais. São Paulo teve, em 2010, uma redução histórica nos homicídios, que passaram de uma taxa de 51 para dez, em cada grupo de 100 mil habitantes.

Um dos fatores apontados pelo ex-subsecretário nacional de Segurança Pública, Guaracy Mingardi, foi o investimento na polícia científica. “Com melhores equipamentos, é possível identificar e punir os criminosos”. (JS)

Seds irá ampliar integração
A Seds se pronunciou, em nota, sobre a incompatibilidade entre os dados do governo e do Data-SUS, mas não explicou o aumento na discrepância. O órgão declarou que “há possibilidade” de estender para o interior, a partir deste ano, o trabalho feito pela Delegacia de Crimes contra a Vida, de Belo Horizonte, que utiliza “as informações dos inquéritos, o que diminui a diferença entre o sistema próprio e do SUS”.

Sobre possíveis falhas no Reds, a secretaria informou que o programa já funciona na PM em todos os municípios e que a instalação na Polícia Civil “será concluída até o fim do ano”. O órgão declarou ter investido cerca de R$ 1,3 milhão no Reds, em 2011. (Da Redação)

FOTO: CHARLES SILVA DUARTE

CHARLES SILVA DUARTE
Minientrevista
“Aqui, a gente brinca de investigar crimes”
Luís Felipe Zilli
Sociólogo e pesquisador do Crisp
Por que existe essa diferença tão grande entre os dados do Ministério da Saúde e do governo de Minas?

É absolutamente incompreensível existir uma diferença de 15% entre os dados. Algum problema grave está ocorrendo. O Estado investiu milhões no sistema de registro das polícias e agora não consegue ser transparente e apresentar dados confiáveis?

O governo estaria maquiando os dados?

O Estado divulga estatísticas de roubo e homicídios de forma unificada para conseguir uma redução maior, mas, se os dados forem desmembrados, conseguiremos perceber que os homicídios reduzem muito menos. O governo não combate os crimes realmente violentos.

O que precisa ser feito?

Se Minas quer, de fato, reduzir o número de homicídios, terá que investir na Polícia Civil. Aqui, a gente brinca de apurar crimes. É inadmissível que Belo Horizonte tenha uma taxa de 33 homicídios para cada 100 mil habitantes. (JS)

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