PMs acusam comando de manipular dados de crimes

Policiais redigem boletins como se ocorrências fossem menos agressivas para “melhorar” desempenho do Estado

cadaver

Segundo as denúncias, homicídios são relatados, muitas vezes, como encontro de cadáver

O combate à criminalidade em Minas tira o sono de policiais militares de todo o Estado. Profissionais garantem que, para cumprir a meta estipulada anualmente pela Secretaria de Defesa Social (Seds), são obrigados por superiores a manipular boletins de ocorrência (B.O.) para reduzir as estatísticas de crimes violentos. Os “bons” resultados apresentados à sociedade rendem uma recompensa financeira aos policiais militares, conhecida como Abono Produtividade, recebida de acordo com o desempenho a cada ano de serviço.

As denúncias alertam para um falso avanço no combate à violência no Estado. Para “melhorar” os indicadores, alguns PMs redigem as ocorrências como se os crimes fossem menos agressivos. A estratégia “transforma” homicídio em encontro de cadáver e tentativa de assassinato em lesão corporal. A lesão corporal é classificada como agressão, que, por sua vez, vira atrito verbal. Já o roubo é lavrado como um simples furto.

Em Contagem, por exemplo, os registros de encontro de cadáver passaram de 27, em 2010, para 42 em 2011, um aumento de 55%. A situação se repete em Santa Luzia, também na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde as ocorrências dobraram no mesmo intervalo, subindo de 12 para 24.

“A ordem dos comandantes é a de que os índices de criminalidade estejam dentro das expectativas do Governo”, diz um militar que trabalha em Belo Horizonte e pediu anonimato. “A verdade é que não temos como diminuir a violência com a realidade atual do Estado. A população aumentou e o efetivo policial continua o mesmo. Jamais conseguiremos bater as metas nessas condições”.

Um boletim de ocorrência redigido em dezembro de 2011 mostra a insatisfação de policiais que são obrigados a “burlar” o B.O.. No registro feito por militares do 34° Batalhão da PM, a vítima relata que estava na porta da casa de um amigo quando foi alvo de tiros efetuados por quatro homens em um veículo.

Por ordens de superiores, a ocorrência foi registrada como disparo de arma de fogo. Inconformado com a identificação do B.O., o policial responsável pelo boletim relatou que no local foram encontradas cápsulas de duas armas, contradizendo a versão de um simples tiro.

O histórico da ocorrência informa que o registro foi feito “seguindo orientações do senhor ten. cel. Fagundes, comandante do 34° Batalhão, segundo informações do ten. Rafael, comandante do patrulhamento no 34° Batalhão neste turno”. Para mostrar que a denominação não estava de acordo com as regras da corporação, o policial acrescentou: “Cumprindo determinação do CICOP (Centro Integrado de Comunicações Operacionais), fica relatado este B.O. com a natureza de homicídio tentado contra a vítima”.

O PM também fez constar no documento a determinação de superiores para que o episódio fosse anotado como um simples disparo de arma de fogo. Procurado pelo Hoje em Dia, o comandante do 34° Batalhão, tenente-coronel Idzel Fagundes, afirmou que só comentaria o fato após analisar o boletim.

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