Sistema que reduz dengue pela metade é ignorado em Minas

Cidades registraram retração no número de casos em plena epidemia de 2010
Armadilha que atrai mosquito é instalada em casas e comércios

Mesmo com milhares de casos de dengue em Minas Gerais a cada ano, uma técnica capaz de reduzir em 50% o número de infecções tem sido negligenciada pelas autoridades públicas. Apenas 25 dos 853 municípios do Estado utilizam o Monitoramento Inteligente da Dengue (MI Dengue), que possibilita, por meio da captura de fêmeas do Aedes aegypti em armadilhas plásticas, apontar mais precisamente os locais onde há infestação.
O mês de janeiro é um dos mais complicados, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES). A chuva, aliada ao calor, cria o ambiente ideal para a proliferação do mosquito. No ano passado, Minas Gerais teve mais de 64 mil casos da doença notificados e 23 óbitos.
A queda pela metade nas infecções nos municípios que utilizam o MI Dengue foi apontada por pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), parceira no desenvolvimento da técnica. Uma armadilha, chamada Mosquitrap, captura fêmeas adultas do mosquito. O número de capturas em cada armadilha fornece as informações sobre a população flutuante do vetor. Esses dados são enviados semanalmente por telefone celular para uma central informatizada, que pode ser acessada, online, pelos gestores da saúde dos municípios.
Os mosquitos capturados são identificados e enviados para o laboratório parceiro na UFMG, local onde são realizados testes genéticos que permitem detectar a presença do vírus no vetor e mapear as áreas do município por circulação viral.
Esse processo permite ainda que as ações de controle sejam mais eficazes. Segundo especialistas, se o sistema estivesse implantado em todo o Estado, os casos da doença poderiam também cair pela metade. “Com o MI-Dengue, conseguimos chegar ao foco do mosquito e mapear exatamente os locais onde há mais infestação. O monitoramento é mais eficiente que muitas outras formas de combate à doença”, explica Álvaro Eiras, do departamento de parasitologia do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFMG.
A pesquisa indicou que, em 2010, quando o Estado teve a maior epidemia da doença, com 261 mil casos e 106 mortes, os registros de dengue poderiam ser 86% maiores no Estado se os 25 municípios não tivessem o MI-Dengue. “Nós percebemos que, enquanto as cidades que não tinham a tecnologia aumentavam o número de casos, as que tinham apresentavam redução”, relatou Eiras.
O monitoramento é feito em conjunto entre a UFMG, a empresa Encovec, as prefeituras e a SES. As armadilhas são instaladas em residências e estabelecimentos comerciais, a cada 250 metros. Em Sete Lagoas, na região Central, o MI Dengue se mostrou benéfico. “Com o mapeamento, sabemos onde e como agir”, diz a coordenadora epidemiológica Maria José Lanza. Para este ano, apenas Caratinga, na Zona da Mata, tem previsão de aderir ao sistema.

Busca na web
Redes sociais são “investigadas”

A Secretaria de Estado de Saúde (SES) tem utilizado as redes sociais como aliada no combate à dengue. Um programa chamado Observatório da Dengue, desenvolvido em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reúne os comentários dos internautas sobre a dengue e identifica as cidades onde podem ocorrer surtos. A tecnologia faz uma busca em redes sociais como Twitter e Facebook, pela palavra-chave “dengue”, e identifica as cidades onde os internautas comentam mais a doença.
“As redes sociais podem ser vistas como o reflexo do que acontece na sociedade. Captando o horário e o local onde os internautas estão falando mais sobre a dengue, nós conseguimos mapear os possíveis surtos e permitir que o Estado intensifique o combate nessas regiões”, explica o coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Dengue da UFMG, Mauro Teixeira.
O sistema está em uso desde o mês passado e deve ser ampliado para outros Estados. Uma equipe da UFMG faz, diariamente, o monitoramento dos casos pela internet e encaminha os resultados para a secretaria.  Para o coordenador estadual do programa de combate à dengue em Minas, Rodrigo Queiroga, o Observatório da Dengue é um importante aliado. “Mandamos um agente até o local para solucionar o problema. Isso nos traz mais agilidade para evitar surtos”. (NO)

Tipo 4
Ameaçada por novo vírus, capital rejeita tecnologia

Por ser a cidade mais populosa de Minas, Belo Horizonte registra, normalmente, o maior número de casos da doença. Mas nem por isso o município adotou o MI Dengue. Segundo a analista técnica da Ecovec, Cecília Marques, a capital instalou o sistema em 2008, mas teve resistência em manter a tecnologia. Em 2010, o Estado registrou uma epidemia, e a capital, mais de 50 mil casos.

Ontem, o município comemorou a redução do número de casos ao divulgar o balanço de 2011. Foram 1.572 infectados, ou 97% a menos que o período anterior. Porém, especialistas alertam para a presença do vírus do tipo 4. Os sintomas são os mesmos dos demais tipos de vírus (1, 2 e 3), mas, como a população não está imunizada por esse novo tipo de dengue, pode haver uma nova epidemia.

De acordo com o secretário adjunto de Saúde de Belo Horizonte, Fabiano Pimenta, a capital não precisa do MI Dengue, já que utiliza outras 1.800 armadilhas para pegar o mosquito e conter a doença. “Nós fazemos um trabalho integrado de combate e estamos tendo resultados satisfatórios”.

Mesmo assim, Cecília afirma que, se Belo Horizonte possuísse a tecnologia em 2010, quando houve o pior surto da doença no Estado, poderia haver menos casos da doença. “O sistema custa R$ 1 por habitante, por ano. A cidade poderia economizar e investir em outras formas de combate”, garante. (NO)

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